Perder coisas e pessoas faz parte da vida. Algumas perdas acontecem rapidamente, nos levando a um estado de lamento desesperado. Outras se anunciam com antecedência e levam algum tempo para acontecer, nos levando a um estado melancólico até o dia final.
Quando alguém próximo de nós morre inesperadamente fica uma sensação de que faltou algo, algum passeio, alguma piada, algum programa, alguma conversa, algum adeus. A recuperação é demorada. Até hoje lamento a perda de meu pai. Até hoje vejo seu sorriso constante e ingênuo em noites solitárias e chorosas quando a nostalgia bate. O que me faz retornar ao normal é lembrar tudo o que ele me deixou. A união da família, a qual ele sempre prezou muito e, sobretudo a união com meu irmão. Ele costumava dizer: o pai e a mãe vão morrer, mas o mano vai ser o teu companheiro a vida toda, não briga com ele.
Quando sabemos que a perda vai ocorrer, temos tempo de nos preparar para o momento, não que isto diminua a dor da perda, mas faz com que a recuperação seja mais rápida. Como um casamento que se encaminha para o seu fim. As coisas não funcionam direito, o diálogo já não flui naturalmente, somos levados inconscientemente a um estado melancólico e isolado que somente apressa a separação.
Quando sabemos que alguém muito próximo está de viagem, temos tempo para nos preparar para o momento final, mas nada impede as lágrimas e a sensação de perda. Ao sabermos que um parente está doente e em breve morrerá, ocorre o mesmo. Em todas estas situações de espera pelo momento da perda nos preparamos aparentemente em vão, pois quando ela chega as emoções inevitavelmente afloram.
Entretanto o que percebo é que quando temos tempo para nos preparar o período de recuperação é mais tranqüilo e curto, parece que o sofrimento prévio serviu para colocar as idéias nos lugares certos.
Recentemente fiquei sabendo que a escola onde trabalho foi sumariamente vendida por incompetência administrativa. Parece bastante claro para mim que as condições de trabalho mudarão demais para que eu possa continuar trabalhando por lá. Estou me preparando para a despedida e, por mais que eu não queira me deixar afetar, já aconteceu. Ao longo do tempo em que lá trabalhei, conheci muitas pessoas que, cada uma a seu modo, fazem hoje parte do que eu me tornei. São colegas, mais ou menos próximos, que interagem comigo e a cada momento me fazem perceber o que sou e o que pareço. Além deles, o convívio com os alunos é muito gratificante, sempre me propondo situações e idéias que me levam a superar barreiras, afetivas e profissionais. Quando entrei na sala de aula pela primeira vez depois da notícia (casualmente a turma com que tenho maior identificação) senti algo diferente no ar, no chão, nos rostos, em tudo. Já comecei a me sentir meio estranho ao ambiente.
De qualquer modo, o momento da separação um dia chegará e após ele a vida continuará. Como sempre, tentarei levar de cada uma daquelas pessoas que encontrei no caminho somente as coisas boas que me passaram. As coisas que me incomodaram, ficam para trás sem rancores. Espero poder sair de lá melhor do que entrei e levando apenas o que for construtivo.
Meu novo blog:
Há 17 anos